Blog do Resenhador

por Leopoldo Cavalcante
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Fotos de uma polaroid


“enquanto eu não sei pra onde vou, deixo aqui umas fotos das coisas que fotografei quando não estava pensando em fotografar”

Essa não-introdução do começo dá o tom geral dos poemas desse livro. Não gosto de fazer resenhas de livro de poemas por não me sentir capaz de julgá-los criticamente.

Adelaide Ivánova (Recife, 1982 -) faz quase nada do que eu gosto em poesia – indo até pra áreas da poética moderna que me irritariam profundamente -, mas mesmo assim ainda me veio um calorzinho no coração ao lê-la. Esse, por exemplo, me fez rir:

as letras que o descrevem
o som que elas fazem
o gosto que tem
a textura impossível
o cheiro

é isso:
um gengibre é uma coisa perfeita.

Esse é um misto de melancolia e felicidade:

das coisas que mexem comigo:
vovó passando batom.

Esse faz a música tocar na minha cabeça, o gosto de “Pueblo” vem na boca e o cheiro da loja de conveniência de uma estação na Alemanha na minha memória me deixa down:

sentada num banco de praça
ouvindo wild horses
ouvi o telefone tocar
e soube
do casamento dele:
será numa sexta-feira

estava como o de costume sozinha
enrolando um tabaco chamado “pueblo”
que custa 3,30 na loja de conveniência
da estação de trem de neukölln

achei bonita a coincidência
mas a culpa é minha mesmo
sempre inventando romance pra vida
pra que ela tenha graça
e eu sofra menos
(não que funcione).

continuei sentada em silêncio
que grata surpresa
para quem, oficialmente destrambelhada,
se viu entrando
nos eixos
e cabendo.

Talvez seja esse vício recente em Patty Smith que tá me deixando sentimental. Não sei.