Bípedes implumes. Por Angela Barros Leal


Apalpo as maçãs do rosto e a mão alcança a raiz dos cabelos. Embora não possua uma pele de pêssego, sinto-me um tanto quanto vegetativa, em especial quando giro a palma da mão e encaro a polpa dos dedos, o sabugo das unhas, interessada em saber o que me compõe, o que me faz ser quem tenho sido por tantas décadas.

“O homem é um bípede implume”, teria definido Platão, ou talvez um dos alunos de seu grupo, as versões divergem. Em resposta, o cínico Diógenes, filósofo grego sem teto, de agudo espírito crítico, visando oferecer esclarecimento prático ao mestre ou aos colegas, levou à sala de estudos uma galinha depenada. Enquanto a ave despida cacarejava tonta no meio do grupo, Diógenes teria anunciado à surpresa audiência: Ecce homo. Eis um homem.

Agora há pouco deixei público que em meu rosto brotam maçãs. Que meu cabelo possui raízes. Que existe uma palma e uma polpa na minha mão e dedos, além de haver sabugos em minhas unhas. Devo parecer – aliás, todos nós –, devemos nos assemelhar, frente a olhos alienígenas, a figuras saídas das pinturas de Hieronymus Bosch.

Tal conjunto de percepção me dá um certo nó na boca do estômago. Aliás, essa não deixa de ser uma denominação apropriada, já que pela boca se mata a fome. E a boca do estômago, onde batem asas as borboletas das fortes emoções, se deixa ficar justamente por ali, nas imediações do pé do umbigo.

Mais um acréscimo a essa nossa estranha aparência, construída por traiçoeiras (ou polissêmicas, diria eu, não fosse essa uma definição tão erudita) palavras.

Escavo meu coração de pedra e controlo meu sangue de barata. Uso os miolos para contabilizar: temos assim um pé implantado logo abaixo do umbigo, uma boca retratada no estômago, maçãs no rosto, raiz nos cabelos. A situação se agrava quando espio pelo rabo do olho e enxergo muita coisa para além da asa no nariz e do abano nas orelhas.

De que somos feitos, quando visualizados por meio dessas expressões nascidas da sábia voz do povo, a reconhecer ou a nos atribuir detalhes incompatíveis com nossa suposta grandiosidade?

Que figura não devemos fazer frente aos demais componentes da Criação, desmontados assim, aos pedaços, e remontados em diferente formatação?

Pressinto a agulhada de uma dor a caminho, no caroço do olho. Choro as pitangas, me expresso em um fio de voz e enrijeço a espinha. Ergo o arco das sobrancelhas e disparo queixas quanto às bolsas que se instalaram sob meus olhos. Exibem por fora as marcas de sonhos e pesadelos, e por dentro o carimbo de autenticidade: não se foge das flechas lançadas pela passagem do Tempo, carregadas na pá das omoplatas, na cruz dos ombros.

Fosse eu dona de uma língua geográfica, dessas que trazem impresso em seu dorso o mapa de um país estrangeiro, um traçado sem indicações de tesouros desenhado nas papilas gustativas, a estenderia para seguir a bússola de rumo aleatório conhecida, no dizer popular, como o “rumo da venta”.

A sombra de um sorriso cruza meu rosto. Uma sombra impalpável, criatura bidimensional que me segue fiel desde o berço. Abro a boca em riso aberto e exponho seu céu. Ora, pois, que possuímos também um poder próprio de seres divinos, já que nos foi concedida uma abóbada palatina, um céu no interior de nossas bocas. Deserto de astros e estrelas, é bem verdade, dele só nos damos conta quando a língua o percorre, qual cometa.

Uma voz me sopra ao pé do ouvido e repercute da raiz dos dentes até a planta dos pés. Só tendo uma cabeça de vento para não notar algo de bom nesse emaranhado de formas deformadas, nesse embaralhado de moldes disformes.

Há uma integração em tudo que existe, é o que concluo. Uma unidade intuitivamente pressentida, acima e além da Ciência. Uma promiscuidade de reinos – vegetal, animal, mineral – que nos faz ser quem somos e que, fatalmente, facilita nossa reintegração à Natureza. Isso, claro, após o fermento do Tempo atuar sobre nossa massa, desconcertando, decompondo e desconjuntando nosso corpo, nos deixando, aos poucos, tal e qual uma cópia sofrida daquele bípede implume improvisado por Diógenes.

 

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.