As ideologias da crise brasileira atual, por Pedro Sisnando Leite

"No caso do Brasil, então, há de se perguntar, qual foi a ideologia política que formatou as ações governamentais.  Será que a crise atual tem alguma relação com esse fato?"


Pedro Sisnando Leite é economista com pós-graduação em desenvolvimento econômico e planejamento regional em Israel. Membro do Instituto do Ceará e da Academia de Ciências Sociais do Ceará. É professor titular (aposentado) do programa de mestrado (CAEN) da UFC, onde foi também Pró-Reitor de Planejamento. No Banco do Nordeste, ocupou o cargo de economista e Chefe da Divisão de Estudos Agrícolas do Escritório Técnico de Estudos Econômicos. No período de 1995-2002, exerceu a função de Secretário de Estado de Desenvolvimento Rural do Ceará. Publicou cerca de 40 livros em sua área de especialização e escreveu muitos artigos para jornais e revistas.

Por Pedro Sisnando Leite

São muitas as motivações que estão levando ao desmoronamento da economia e às turbulências políticas e sociais do Brasil atual. Menos fácil de explicar é saber qual é a fonte inspiradora das atitudes e procedimentos dos governantes.  No entanto, costuma-se dizer que as ideias podem transformar o mundo.  Os economistas acrescentam a essa questão a importância da força poderosa das ideologias que moram nas cabeças ou nos corações dos líderes e políticos. Isso para não falar em religião, que é outro elemento espiritual determinante no comportamento humano. Nesse particular, são exemplos das influências que causaram na sociedade mundial as concepções e teorias elaboradas por Karl Marx, Adam Smith, Max Weber etc. Pela história da ciência política é fácil verificar-se que as ideologias, em particular, têm ocupado uma parte determinante da vida dos povos.

Nas últimas décadas, por exemplo, os países de todo mundo estão revelando opção cada vez mais nítida pela economia de mercado, em substituição ao fracassado “planejamento central socialista”.  No caso do Brasil, então, há de se perguntar, qual foi a ideologia política que formatou as ações governamentais.  Será que a crise atual tem alguma relação com esse fato? Alguns colegas da academia dizem que o Brasil tem sua política econômica fundamentada no “Capitalismo de Estado”. Outros dizem que, de algum tempo para cá, o que predominava no Brasil era um modelo populista de preservação do poder. Daí, afirmam, provém os tentáculos da corrupção e desregramento ético.  Aliás, tornou-se comum ver-se o uso dessas expressões pelos parlamentares na Câmara Federal e no Senado.

Vejamos o que poderíamos deduzir das várias fontes de estudos sobre esses fatores invisíveis que estiveram, certamente, condicionando as ações dos dirigentes máximos do País. Pois são eles que marcam a vida de toda a nação.  Apesar de controvérsias, predomina no Brasil a ideia de que a ex-presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva são socialistas bolivarianos, ou de um novo socialismo do século XXI. Há também quem acredite que eles são comunistas castristas e sonhavam introduzir essas filosofias no Brasil. Nesse particular eles são sinceros e firmes.  Parece legitimo sabermos o que inspiravam os nossos governantes para pensarem assim. Não acham?  Mas muitas pessoas do meu relacionamento perguntam o que esses termos realmente significam?  Segundo minhas pesquisas aleatórias, é elevada a percentagem dos que se atrapalham quando vão externar suas opiniões a respeito disso, mesmo nos meios intelectuais e científicos mais esclarecidos.

No entanto, muitos estudos apontam as respostas para essas terminologias. De antemão, é bom lembrar que com a queda do muro de Berlim, em 1989, levando a um colapso do comunismo da URSS e do socialismo prático no Leste Europeu, a esquerda mundial caiu num buraco negro. Após algum tempo desse desmoronamento do socialismo prático, os seguidores dessa herança ideológica buscaram uma nova fonte de doutrinas de inspiração marxista-leninista para enquadrar uma nova revolução socialista numa base chamada “democrática”.  A proposta de luta de classes, e de extinção da propriedade privada, foi substituída pelo “capitalismo de estado”, que é um disfarce do socialismo totalitário convencional.

Essa mudança de estratégia dos movimentos de esquerda da corrente latino-americana para o alcance do socialismo sem revolução está arquitetada e esquematizada  no manual do fundador do partido comunista italiano: Antônio Gramsci.  Na verdade, esse filósofo é uma referência essencial do pensamento da esquerda latina americana das últimas décadas.  Segundo os analistas dessa doutrina, Gramsci promoveu o casamento dos pensamentos de Marx com os de Maquiavel, criando um novo sistema “comunista” chamado de “democrático”, pois ele dispensa a luta de classes.  É a tomada do poder pela desmoralização do capitalismo ou da economia de mercado, como está sendo feito em alguns países latino americanos com a liderança da Venezuela e o respaldo cubano.

Para Gramsci, mais do que para Maquiavel e Marx, os fins justificam os meios e qualquer ato é legítimo a partir de sua utilidade para a tomada ou manutenção do poder. Por exemplo, para esses pensadores, o Mensalão e o Lava-Jato são ideologicamente “éticos”.  As entrevistas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em muitas oportunidades, comprovam essa assertiva. Daí porque os responsáveis por essas ações estão tranquilos com suas consciências e, ironicamente, esperam o beneplácito da justiça e a aclamação dos seus seguidores.

Outro pensamento corriqueiro entre os adeptos do novo socialismo gramsciano, proposto pelo comunista italiano, é quanto ao conceito de “verdade”, que segundo eles é um sentimento “burguês” contagioso. Assim, na revolução silenciosa desse movimento, não há lugar para a distinção burguesa entre verdade e mentira. Quando necessário, a mentira deve ser repetida tantas vezes quanto seja necessária para parecer verdade.

Gramsci também exige dos seus adeptos  que toda a atividade cultural e científica se reduza a mera propaganda política, mais ou menos disfarçada.  A estratégia é “sutilmente” dominar a burguesia através do controle do sistema educacional, das instituições religiosas, empresas estatais e dos meios de comunicação. Como todos podem deduzir, esse plano de dominação do poder político e social está em plena execução na América Latina e, possivelmente, no Brasil.

As estratégias do Gramscismo para o domínio do judiciário e das formas armadas nos países capitalistas são inacreditáveis, mas estão sendo usadas sorrateiramente pelos países bolivarianos da América Latina.   As mais imperceptíveis e eficazes estratégias para a dominação de um país são através da educação, das escolas.    Vejam o que está no manual desse guru do socialismo brasileiro: Construir uma massa de manobra, usando as universidades, a mídia e as editoras. Usar professores da nova massa de manobra no ensino básico (fundamental e médio). Mudar valores e princípios ético-morais para alterar a estrutura familiar. Controlar escolas e universidades particulares através de sindicatos e oferecimento de bolsas para financiar o ensino privado sem fiscalização, em compensação pelo apoio desse setor às orientações do governo. Tudo isso, como proclama Antônio Cramsci, “Para enfraquecer a vontade nacional” e a tomada final do poder para a instalação da nova democracia monocrática, ou o socialismo bolivariano que estava em curso no Brasil. Mas essa estratégia política ideológica instalada no poder público ruiu como o muro de Berlim, para o bem do Brasil.

Uma fração crescente da humanidade clama por políticas e ações que impeçam o avanço da pobreza, a indiferença com o desenvolvimento humano e com as pessoas excluídas do desenvolvimento econômico.

A resposta a essa busca por um mundo mais justo e solidário encontra- se proposto na Doutrina Social da Igreja. Essa Doutrina é constituída de um conjunto de princípios, critérios de julgamento e diretrizes de ação, objeti­vando a preservação da dignidade humana no contexto da sociedade opulenta ou subdesenvolvida. A Doutrina Social da Igreja utilizou-se dos recursos da sabedoria, das ciências humanas e dos conhecimentos técnicos de economia para explicitar as exigências sociais e morais do Evangelho. Ela trata da pri­mazia do bem comum, da destinação universal dos bens econômicos e dos princípios de solidariedade e liberdade do ser humano.

A Doutrina Social da Igreja não é uma terceira via da economia, entre capitalismo liberal e coletivismo marxista ou socialismo leninista. Mas se constitui numa categoria própria de pensamento, visando um desenvolvimen­to autêntico e justo, sem pobreza e exploração do trabalho humano. A preocu­pação é superar a incapacidade dos sistemas econômicos e políticos em ofere­cer a prosperidade a serviço da humanidade. Essa visão do mundo se confundi com a própria história do catolicismo, mas foi notabilizada pela encíclica Rerum Novarum (1891), do Papa Leão XIII. Este documento foi para a ação so­cial cristã tão importante como o manifesto dos comunistas (1848) para a ideologia materialista.

A fundamentação filosófica e doutrinária da Igreja teve continuidade e aperfeiçoamentos nas encíclicas de Pio XI (1931); Pio XII (1941); João XII- 1(1961); e Paulo VI (1971). Foi, no entanto, o Papa João Paulo II que ampliou e consolidou a Doutrina Social da Igreja através de notáveis encíclicas e deze­nas de documentos e pronunciamentos durante os 26 anos de seu magistério. Não podem deixar de ser mencionados a Laborem Exercem (1981); Solicitudo Rei Socialis (1987); Centesimu Annus (1991); e os documentos Eecclesia in América (1991); A Fome no Mundo(1996); A Igreja e Problemas da Terra; Reflexões sobre a Conjuntura Política; Nordeste: Desafio e Missão da Igreja no Brasil; Exigências Éticas da Ordem Democráticas; e muitos outros docu­mentos.

Em resumo, a fé cristã e a Igreja estão presentes em toda a vida social e comunitária da humanidade, como nenhuma outra religião jamais esteve. E o pensamento e o coração do Sumo Pontífice Wojtyla transformaram a Doutri­na Social da Igreja em um verdadeiro “Breviário” para todos os cristãos de boa vontade que anseiam por um novo mundo de liberdade e solidariedade.