Ao dificultar adesão do PDT, RC tenta se credenciar como oposição a Elmano

O PDT pode decidir sua posição via voto em movimento idêntico ao que tirou de Izolda Cela o direito de candidatar-se à reeleição. Seria uma ironia da História


Poucas eleições foram tão cruéis com um protagonista de nossa política como a última para o Governo do Ceará. O resultado das urnas jogou Roberto Cláudio em uma dura posição de isolamento até mesmo dentro de seu partido.

De tão ruim, o resultado de pouco mais de 14% dos votos válidos obtidos por RC foi fundamental para a vitória de Elmano de Freitas ainda no primeiro turno. Vitórias em primeiro turno dão ao vencedor grande capital político e fragiliza por demais os derrotados.

De todo modo, o PDT saiu da eleição estadual derrotado para o Governo, mas com as maiores bancadas no Ceará e em Brasília. Só que a maior parte desses eleitos ou é ligada a ala do PDT que ficou com Cid Gomes ou não tem nenhuma disposição/vocação para se colocar como opositor.

Não é à toa que hoje RC, certamente com aval de Ciro Gomes, é praticamente o único obstáculo que, até aqui, impede a adesão completa e formal do PDT ao futuro Governo Elmano, Não é à toa que os impasses para compor o secretariado se dão exatamente por esse motivo.

José Sarto já não faz questão de reforçar uma ideia de oposição. Na verdade, se fez em algum momento foi por dever político a quem bancou sua eleição. O ainda presidente da Câmara e futuro deputado estadual, Antônio Henrique, está na mesma linha do prefeito.

O impasse é o seguinte: para negociar com o PDT, Elmano precisa de uma posição formal do partido. Sem essa formalidade, a negociação passa a ter um formato… digamos… mais complexo.

Sem a adesão oficial, Cid Gomes e nenhum outro pedetista, por exemplo, podem usufruir do conforto político de fazer negociações em nome do partido. Não poderão também falar em público a respeito do apoio se este não for oficial.

RC está certo em agir assim? Não há certo ou errado nesse caso. Em política, faz-se o que está ao alcance de cada um. É legítimo que o ex-prefeito de Fortaleza busque se credenciar como oposição e encontre seu espaço em um quadro político que se fez muito difícil para ele.

Claro que há imensos riscos nessa postura. Principalmente para quem ficou sem mandato e sem grupo político de envergadura. Um dos riscos é aumentar sua situação de isolamento, se é que isso é possível.

O pior dos mundos para RC é, mais adiante, o PDT decidir que sua posição será adotada via voto. No âmbito do diretório estadual, por exemplo. Assim, um movimento idêntico ao que tirou de Izolda Cela o direito de candidatar-se à reeleição certamente seria mais um duro golpe em Roberto Cláudio.

Bom, a preço de hoje, não é recomendável colocar RC e Cid na mesma mesa. Azedou de vez. André Figueiredo vai se equilibrando entre os dois. E José Sarto?

Bom, o prefeito da Capital, sem demonstrar apetite e vocação para o Executivo, continua tentando governar com uma equipe cuja grande e estratégica parte é formada por gente ligada a RC. Uma gestão que termina o 2º ano impondo a si mesma o imenso desgaste da taxa do lixo.

Ao longo do tempo, todas as situações acima vão se ajustando. Vamos esperar para saber de que forma.

Fábio Campos

Jornalista graduado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), foi repórter de política e articulista do O Povo, o mais tradicional veículo de jornalismo impresso do Ceará, onde editou a Coluna Política por 14 anos (1996-2010) e a Coluna Fábio Campos por sete anos (2010-2017). Também foi editorialista do mesmo veículo entre 2013 e 2017. Concomitantemente às funções no jornal, editou o Anuário do Ceará por 15 anos, modernizando o conteúdo e o projeto gráfico da prestigiada publicação. Apresentou o programa Jogo Político na TV O Povo por 12 anos, ancorou o programa Contraponto na TV Cidade (Record), foi comentarista de política na TV Jangadeiro (SBT) e na rádio O Povo/CBN. Em agosto de 2017 iniciou a startup Focus.jor.