Adriana e o ciclo da natureza. Por Angela Barros Leal


Ela nasceu na Serra de Guaramiranga, em um sítio por detrás de uma casa imensa e moderna, dentro de um condomínio de outras casas imensas e modernas, instaladas naquele trecho antes encoberto pela mata (na voz de Walter Benjamin, “nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie”, mas isso não vem ao caso).

Ela foi preparada para a viagem pelo caseiro, que a escolheu entre outras tão semelhantes no sítio, e que deu as costas à sua partida. Era miudinha, talvez uns 40cm de altura. Cabia perfeitamente no espaço do chão, entre os dois assentos do banco de trás do carro, e assim viajou até Fortaleza, com suas pequenas palmas acariciando nossas pernas. Embora fosse uma simples bananeira, ganhou de minha neta, em cerimônia de batismo improvisado entre Redenção e Guaiuba, o ilustre nome de Adriana. 

E como Adriana se deu bem em Fortaleza! Replantada em um jarro, na minha varanda, semanalmente lançava ao ar um espeto pontudo e escuro, que logo mais se desatava em uma palma verde, do mais puro verde de Guaramiranga, novinha em folha, acenando desenvolta a quem chegava e a quem a avistava da rua.

Em pouco mais de um ano Adriana não cabia mais no jarro que ocupara desde a chegada. As raízes continuaram a se expandir e o vaso abrira-se verticalmente, uma cicatriz larga no cimento indicando as dores do crescimento. Transplantada para outro jarro maior, em seis meses dava nova mostra de sua força interna, e mais uma vez vencia os limites de seu suporte, qual um Golias vegetal derrubando as colunas do templo.

Um cunhado gentil, de fundas raízes sertanejas, atendeu minhas súplicas por um novo lar para Adriana, dessa vez em chão de verdade, e não no constrangimento forçado dos jarros. Morando em uma casa, com uma faixa estreita de terra que reservara para uma horta caseira, cedeu à recém-chegada um espaço onde ela poderia crescer.

E como Adriana cresceu. Apesar da aparente hostilidade do terreno, tendo a casa sido construída em local onde antes imperaram as salinas, como Adriana cresceu. Apesar do vento constante, rasgando em franjas suas novas palmas, sempre verdes, sempre semanais, como Adriana cresceu. Apesar da sombra lançada pelo muro de grande altura, junto ao qual fora plantada, como Adriana cresceu, até superá-lo e ser impossível tocar suas palmas.

Tornou-se conhecida por toda a família, que dela pedia notícias, e a quem meu cunhado periodicamente atendia, orgulhoso, enviando fotos e vídeos do espantoso crescimento dela. Consultara agrônomos, especialistas em musas paradisíacas, denominação científica das Adrianas, e prestara o atendimento necessário para que não apenas ela prosseguisse em seu desenvolvimento, mas também para zelar pelos tantos filhos que começavam a surgir em sua volta.

Que terra, essa nossa, nos surpreendíamos nas visitas frequentes, boquiabertos tal e qual o escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, testemunhando com nossos próprios olhos que, em se plantando, tudo dava, admirados com a rapidez do surgimento dos novos brotos, que logo erguiam a coluna, alongavam o tronco e se estendiam para o alto, uma folha verde a cada semana.

Enraizara-se, Adriana, naquela tira estreita de terra aparente, enraizara-se de forma tão profunda, e tão produtiva, a ponto de certamente ter esquecido seu berço, no silencioso verdor da Serra, e ser considerada uma planta urbana, de palmas agitadas, adaptada ao ruído do tráfego pesado, às buzinas, às emanações dos veículos. Era agora uma planta adulta, pronta para seu primeiro cacho. 

E assim se deu. Acompanhamos em fotos, em vídeos, e com nossos próprios olhos desabituados ao ritmo da Natureza, o surgimento da bráctea – o chamado coração, a flor do cacho, o pendão avermelhado anunciador da formação das bananas – e sua remoção para que se formassem os pequenos frutos, os pistilos como cílios minúsculos afixados na ponta de cada banana, até as primeiras delas darem sinais de maturidade.

O cacho era opulento, suntuoso, verde e dourado como as coroas de reis astecas. Ao ser cortado, em cerimônia conduzida por meu cunhado, na presença dos netos, convocados para usufruírem da rara oportunidade de aprender que frutas não nascem nas prateleiras dos supermercados, o cacho pesava mais de 30 quilos, somando quase oito dezenas de bananas, distribuídas entre os familiares, doces bananas com o gosto da Serra.

Existe a remota possibilidade que outros ainda venham a brotar, segundo os especialistas consultados por meu cunhado, após analisarem seu tronco manchado de negro. O mais provável, porém, é que tenha chegado a vez das filhas e netas de Adriana produzirem seus próprios frutos, e que Adriana seja sacrificada para dar lugar aos que chegam. Minha neta entristeceu quando soube disso. Mas entendeu, como precisamos entender todos nós, que não há como fugir ao ciclo inevitável da Natureza.

 

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.