A verdade está morta, por Acelino Pontes

"Desculpe, se destruí as suas ilusões na questão verdade “verdadeira”. Ninguém perde, ninguém ganha. Verdade foi, é e sempre será subjetiva; cada um tem a sua"


Acelino Pontes é licenciado e bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Bacharel em Direito pela FAECE. Tem doutorado em Medicina e Filosofia pela Universidade de Boon, na Alemanha. Professor visitante: Aachen, Berlin [FU], Bielefeld, Bochum, Bonn, Düsseldorf, Erlangen, Hamburg, Hannover [MHH], Heidelberg, München [LMU], Marburg [Philipps-Universität], São Paulo – SP [USP], Vitória – ES e Wiesbaden [DGIM]. Acadêmico Titular Fundador: Academia Cearense de Direito e Academia Cearense de Matemática. Membro do Conselho Superior da Academia Brasileira de Direito. Autor da obra “Fenomenologia da Ampla Defesa e do Contraditório: – paradigmas axiológicos e jurídicos” (Portuguese Edition). Escreve no Focus.jor
Acelino Pontes
Post convidado

Uma frase idêntica revolucionou o mundo religioso ao final do Século 19. Trata-se da frase Deus está morto, diligenciada pelo alemão Friedrich Nietzsche em seu livro Die fröhliche Wissenschaft, 1882 [Alegre Ciência]. E, a frase não mimoseou com alegria o seu originador. Longe disso, o mundo cristão se ergueu contra ele, levantando peçonhentos enredos, objeções e refusões.

E o desditoso Nietzsche só estava secundando constatações antigas de Hegel (1770 1831) e do príncipe dos poetas alemães Heinrich Heine (1797 – 1856), que já andavam bisbilhotando a forma de ser das religiões. Inclusive o Hegel nos brinda com um brilhante e abrangente ensaio (quase metafísico) sobre a existência e encorpadura de Deus, tanto do aspecto transcendental como da visão da imanência; ou seja, trata de Deus tanto na qualidade de Espírito e quanto na de Ser humanizado ou materializado.

Esses literatos não mataram Deus, apenas constataram a morte Dele, causada pela evolução (ou involução) dos tempos. A religião, já ao tempo, estava em declínio, perdendo a sua condição fulcral na humanidade. À vista disso, o título desta crônica não indica que o autor matou a verdade. Em contrário, somente constatou a morte da verdade. E o facínora? A internet com as suas mais estrondosas ‘verdades’, as fake news. Com a morte da verdade quem perde, quem ganha? Essas são questões muito profundas que não se deixam responder com incomplexidades. Anteriormente, há a imprescindibilidade de uma limpeza de conceito, notadamente do de verdade. Essencialmente, a verdade nem sempre é a verdade.

Sobre a Verdade. A ideia de verdade é algo tão preciso quanto ambíguo. Constantemente, nos leva a matutar sobre um fato ou realidade, dentro do ambiente de declarações ou julgamentos. Ademais, verdade também é compreendida como a concordância de uma afirmação com uma intenção ou com um certo significado, mas também com uma visão normativamente excelente ou com o próprio conhecimento, experiência ou convicções. Essas abstrações nos orientam ao conceito de veracidade. Considerações mais profundas veem a verdade como o resultado de um processo revelador ou descobridor para reconhecer conexões originais, ou peculiaridade essenciais. O adjetivo implícito, verdadeiro, também pode descrever a genuinidade, precisão, pureza ou autenticidade de uma coisa, ato ou pessoa medida por um termo específico. No estilo anfêmero, pode-se distinguir a verdade da mentira.

Nessa complexidade, a questão da verdade mira um dos problemas centrais da filosofia e da lógica, elucidada por diferentes teorias. Nesse terreno, as questões sobre uma definição de verdade e sobre um critério para determinar se algo é corretamente chamado de verdadeiro, podem ser grosseiramente diferenciadas. Em certas semânticas formais, são atribuídos valores de verdade que descrevem o cumprimento em certos contextos. A noção de probabilidade, que é importante para os fundamentos da matemática, pode às vezes, ser associada a tais conceitos semânticos de verdade, ou de uma demonstração da verdade.

Tudo isso, é muito indigesto e de difícil discernimento. Fala-se muito e diz-se pouco, pelo menos do que quero ouvir. Mas, vamos elucidar o quê dizem os filósofos sobre a verdade. Anote-se que verdade era conhecida no grego antigo como ἀλήθεια (aletheia) e no latim como veritas.

Aristóteles (384 – 322 a.C.) elegeu a teoria da correspondência para dizer se algo é verdadeiro ou falso, excluindo a possibilidade da verdade ser uma questão de opinião. Para Aristóteles, se é branco é branco, portanto não será preto!

Thomas de Aquino (1225 – 1274) vai falar de verdade como concordância da coisa com o entendimento. Complicou e melhorou. Ele simplesmente diz, que uma coisa qualquer deve sempre estar em consonância com o quê percebo sobre ela. Isso pode soar como opinião ou arbítrio.

Kant (1724 – 1804) também vai falar de concordância, mas acrescenta a dependência dessa com a fonte do conhecimento particular e com o verificacionismo. Ou seja, não é o crer para ver, mas o sempre verificar se é verdade, dentro dos haveres pessoais de cada um.

As abordagens filosóficas mais modernas, captam verdade com a qualidade de crença, opinião ou enunciado que pode se relacionar com qualquer área do conhecimento.

E o quê sabe a comunidade judaico-cristã? No Antigo Testamento, o termo “verdade” corresponde à palavra אֶמֶת (eh’-meth), com o  significado de confiabilidade, a inviolabilidade de uma coisa ou palavra, a fidelidade das pessoas. Mas, não esqueça: sempre uma questão da revelação. Ao contexto interpessoal, verdade aproxima-se à lei. O próprio Deus é a fonte de toda a verdade: “Sim, meu Senhor e Deus, você é o único Deus e suas palavras são verdadeiras” (Sam 7:28). “Porque a palavra do Senhor é verdadeira, todas as suas obras são confiáveis” (Sl 33.4).

O conceito verdade no Novo Testamento tem especial expressão em Paulo e no Evangelho de João, fortemente ligada à cristologia. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14: 6). Entretanto, na história da teologia cristã, a verdade da fé cristã esteve repetidamente no centro de intensa controvérsia. Na Idade Média, foram feitas tentativas para resolver a disputa com a teoria da “dupla verdade”, segundo a qual ela pode ser verdadeira na fé religiosa subjetiva ou na teologia científica, mas o 5.º Concílio de Latrão, em 1513, classificou a “dupla verdade” como heresia.

Conclusão. Desculpe, se destruí as suas ilusões na questão verdade “verdadeira”. Ninguém perde, ninguém ganha. Verdade foi, é e sempre será subjetiva; cada um tem a sua.