A nova epidemia, por Rui Martinho


Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

O novo vírus preocupa a Organização Mundial de Saúde (OMS). Vem da China. Lembra a gripe espanhola, causada por um vírus de alta infectividade (capacidade de se instalar, permanecer e se multiplicar no organismo do hospedeiro); elevada patogenicidade (provoca efeitos patológicos); e grande virulência (produz efeitos severos). Transformou-se numa pandemia. Causou grande mortandade. Não havia vacina nem antivirais. Na maior parte ou na totalidade do mundo, não existiam serviços de vigilância epidemiológica organizados e eficientes.

Os surtos epidêmicos dependem dos fatores do agente etiológico; do modo de transmissão e da resistência do hospedeiro. O vírus da gripe espanhola, uma variedade do influenza, tem grande infectividade. “Desembarcando” em um organismo logo se instala e multiplica. Também tem grande patogenicidade, quase sempre produzindo efeitos patológicos no hospedeiro. Sua virulência, na época, era elevada, causando danos severos. Igual em tudo ao coronavírus do atual surto vindo da China. As condições para a rápida propagação, levando a uma pandemia, são que o modo de transmissão do agente facilite sua transmissão. Nisso também o atual vírus é igual ao da gripe espanhola, transmitindo-se por via respiratória ou por contato com áreas sem a proteção tegumentar, como os olhos. Gotículas de espirro, tosse ou da fala podem veicular o agente que pode ser aspirado por quem estiver próximo. Mãos contaminadas podem veicular o vírus.

A resistência do hospedeiro se iguala, pela falta de vacina, já que ao tempo da pandemia de 1918 não existia vacina para o influenza e todos eram vulneráveis, porque sendo um vírus novo quase não existiam pessoas resistentes a ele. Uma vacina contra o coronavírus não deve demorar. O aperfeiçoamento da vigilância epidemiológica é o fator que faz a diferença. A notificação dos casos, seguido do bloqueio que isola o paciente acometido e os seus comunicantes; a vigilância nos aeroportos e portos (e outras medidas) é o que resta na falta de imunizantes e antivirais.

Chegamos nas políticas públicas; na qualidade dos serviços públicos e particulares. Notificação, vigilância e bloqueio ágeis e eficientes. O SUS orgulha os estudiosos que não se servem dele, exceto como emprego. Um viajante vindo da China conta que passou no aeroporto e não perguntaram se ele apresentava algum sinal ou sintoma ou se teve contato suspeito. Não temos vigilância nos aeroportos. Temos a prática da notificação? Caso o profissional que atende um paciente emita a notificação, haverá providência em tempo hábil?

No Japão qualquer resfriado é motivo para que o paciente acometido só saia usando máscara. Isso não acontece aqui. Falta educação. Epidemias já não são devastadoras. Imunização aliada ao controle sanitário limitam os seus efeitos. Algumas até foram erradicadas. Mas tratando-se de agente transmissão respiratória; não havendo imunização; sem um controle sanitário ágil e eficiente poderemos ter um grave problema.

É preciso eleger prioridades. Na China a prioridade é voltada para os aspectos estruturais dos problemas sociais, inclusive os de saúde. Sendo um regime totalitário, eles não universalizaram os serviços de saúde, porque não precisam curvar-se às demandas sociais. Preferiram promover o saneamento; a imunização e atender outros aspectos estruturais. Nós não podemos e não queremos agir assim. Isso torna o nosso desafio maior. Precisamos acelerar a reforma administrativa sem a qual não teremos serviços públicos de qualidade.