A homenagem do juiz Augustino Chaves a Jorge Ary tem o calor e a força da saga dos libaneses no Ceará

´"O que me aflige na morte, não é tanto me afastar dos livros, da música, do tabuleiro de xadrez, das viagens; é achar que não mais vou ter perto as pessoas que fazem parte de mim".


Augustino e o amigo Jorge Ary.

Jorge Xafy Ary nasceu em Fortaleza, em 1942. Seus quatro avós eram libaneses. O pai, Seu Xafy, estabeleceu-se comerciante, em sua sortida loja de tecidos no centro da cidade.

Cedo, Jorge foi trabalhar na companhia do pai e nessa lida varou em seu carro as estradas de então do interior do Piauí e Maranhão, cumprindo sua sina de libanês, na tradição profunda de seus ancestrais.

Paralelamente, formou-se em economia e contabilidade pela UFC.

Prazerosamente, remontava aos anos sessenta, quando, repetia, seus olhos se encantaram pela mulher mais charmosa de sua geração, Jane Porto, com quem casou, logo que ela retornou de um período nos EUA. Foram 53 anos de casamento. Três filhos e cinco netos. Um porto seguro. Moraram do primeiro ao último dia de casamento na mesma casa, na Rua Barbosa de Freitas, que se tornou conhecida como “a casa do Jorge Ary”.

Jorge partiu para fábrica de plástico. Tentando superar nosso atávico subdesenvolvimento, lançou-se em busca de tecnologia na Alemanha. Aquelas máquinas de ponta elevaram exponencialmente sua produção, tornando-se nacional. Os seus 32 anos conheceram o êxito empresarial.

Participou de outros setores empresariais, sobretudo da construção civil, ao lado do irmão, o engenheiro Walder Ary.

Os altos e baixos da atividade empresarial no Brasil e no Ceará, próprios da natureza de nossa economia, deixaram Jorge bastante resumido em suas atividades, durante uma década. Não entregou os pontos. Não perdeu o equilíbrio. Não perdeu a persistência. Apenas aguardava novas oportunidades, na medida mesmo de seu sentimento místico da vida.

Eram duas palavras que ele gostava e que pronunciava em conjunto: equilíbrio e persistência. Nessa década, cuidou de si, praticava diariamente muito exercício, andando e nadando.

Os deuses lhe apresentaram nova oportunidade, através do amigo Carlos Francisco Jereissati, a quem devotava inquebrantável lealdade.

Passou a trabalhar no setor de telefonia. Assumiu essa atividade bem a seu modo: de corpo e alma.

Sempre insistia em que se deve pensar diariamente o negócio, que negócio requer atenção sem intervalos. Repetia sempre quão afortunado foi na medida em que seu sócio era Mário Jorge. Os dois, de geração distintas, de distintos traços, completavam-se. Jorge sabia quanto é essencial a escolha do sócio. O sucesso empresarial lhe voltava profusamente.

Jorge amava suas raízes libanesas. Por duas vezes, em busca de si mesmo, visitou Zahle, o torrão de seus ascendentes. Parte desses habitantes cruzou a Terra e constituiu a colônia libanesa-cearense.

Jorge teve a iniciativa e contribuiu a um livro que registrou essa saga. Um de seus projetos era realizar um filme sobre os libaneses no Brasil.

Do sangue árabe que lhe pulsava nas veias, veio-lhe o temperamento impetuoso, indômito. Também o gosto por festas e farturas, onde sempre presente a culinária libanesa. Duas datas eram marcadas no calendário, memoráveis festas, no salão de sua casa: seu aniversário, 14 de agosto; e o dia de Natal, 24 de dezembro.

Quando Jorge falava de negócios a juventude estampava em seu rosto. Ali residia seu talento. Aos 78 queria se emancipar no uso da tecnologia. Queria e conseguiu. Tornou-se up to date.

Entrava em pleno grau de concentração quando o assunto era empresarial, quando o assunto era modelo de negócios. Ali era o jogo a ser jogado.

Poderia contar aqui casos e casos durante nossa década de amizade. Um dia desses conto. Seu gosto por Nova York. Meu gosto pela Europa. Mas agora queria ressaltar que Jorge era uma presença. Uma pessoa que tinha uma forte presença. Um amparo. Uma pessoa de força. Um patriarca.

O que me aflige na morte, não é tanto me afastar dos livros, da música, do tabuleiro de xadrez, das viagens; é achar que não mais vou ter perto as pessoas que fazem parte de mim. A única resposta a esse mistério é acreditar que continuamos conectados, agora e sempre. Mistério se responde com mistério. Ao dom da vida se responde com fé.

O que me cabe entretanto é agradecer. A sabedoria maior nos adverte que devemos agradecer. Agradeço os dez anos de como fui generosamente acolhido por ele. A generosidade era um traço seu.

E sei que ele seguirá comigo, em algum ensinamento ou exemplo, sem nem mesmo eu perceber. Lamento que outros projetos (como o do filme) agora esperam outras mãos. Mas me consolo em saber que Jorge viveu muito bem os 78 anos que lhe foram concedidos e que, onde estiver, vai estar bem.

Meus parabéns a meu querido Comandante Jorge.

Augustino Chaves é juiz federal e assessor da Presidência do STJ em Brasília.