A hecatombe dos camelos. Por Angela Barros Leal


A cidade não dispunha de porto e iria demorar para contar com um. Se o desembarque humano se fazia arriscado em meados do século XIX, com o navio parando ao largo, os passageiros saltando para jangadas ou barcaças, e daí para braços escravos, posso imaginar a dificuldade no desembarque de catorze camelos atordoados, chegando de 5.500km de distância após cerca de um mês no mar.

Mas assim se deu. No sábado, dia 23 de julho de 1859, a galera francesa Splendide, proveniente da Argélia e de Marselha trazendo 126 passageiros, treze cavalos árabes destinados ao Imperador e os já referidos camelos, aproximou-se da costa fortalezense e fundeou à vista da terra. Na tarde do dia seguinte, um festivo domingo, desembarcaram os camelos: dez fêmeas e quatro machos, acompanhados de quatro tratadores berberes.

O desembarque se fez grande evento. Espetáculo público imperdível aquele, de acompanhar as longas canelas dos camelos acomodando-se à força sobre as barcaças movidas pelas ondas, pois não creio ter sido possível de outra forma o desembarque; o rosto assombrado das crianças atrás das saias maternas; o latido confuso dos cães, a curiosidade quanto ao vestuário dos quatro acompanhantes, com seus turbantes e túnicas adejando ao vento da tarde, tranquilizando os bichos em uma língua áspera, nunca ouvida por essas plagas.

Do presidente da Província ao mais desprovido habitante da cidade, todos se fizeram presentes. Os camelos – de fato dromedários, com sua corcova única –chegavam “sãos e bem nutridos”, assegurava o jornal Cearense. Duas tentativas semelhantes haviam sido feitas antes, no Maranhão e na Bahia, com o mesmo propósito de utilizar animais de deserto em territórios secos do Nordeste. Ambas não mostraram resultados, e teria idêntico destino essa terceira experiência.

O Correio Mercantil do Rio de Janeiro esmiuçava o caminho do processo, apoiado por Pedro II, autorizado pelo § 9º, art. 16, da Lei Orçamentária nº 939 de 26 de setembro de 1857, com custos aprovados pelo Decreto nº 2.497 de 11 de outubro de 1859, visando “melhoramento da raça cavalar e introdução de camelos no País”.

Tão logo chegados ao Ceará, o Governo Imperial ordenara que sete camelos e dois de seus pastores árabes, contratados por um ano, fossem levados ao Senador Paula Pessoa, que já mandara construir em sua fazenda de Canindé “uma casa para os árabes e um grande cercado para os camelos”, como afirmara ele em carta ao jornal Cearense. A outra metade seguiria para os cuidados do Cônego Pinto de Mendonça, em Quixeramobim.

Tanto o Imperador quanto o Presidente renderam-se porém às recomendações científicas do Dr. Guilherme Capanema, que expôs a inconveniência da separação imediata. “Fui eu quem propus ao Governo Imperial que mandasse vir para o Ceará camelos”, alardeava Capanema no mesmo jornal, e quase posso ver sua mão enfática batendo no peito: “Fui eu que tratei de obter as informações necessárias para se proceder a encomenda, a qual formulei e fiz”, no desempenho de seu papel de representante no Brasil da Sociedade de Aclimação de Paris, e membro da Comissão Científica de Exploração que percorreria o Ceará até às vésperas da guerra contra o Paraguai.

Era preciso aguardar “que seis ou sete das camelas deem à luz, e que os árabes entendam um pouco mais a língua”, estabelecera. Apenas um deles falava um pouco de francês, o que dificultava a transmissão dos cuidados necessários para com os animais. De fato, eram aquelas criaturas altivas mais rústicas que o trato excessivo a elas oferecido naqueles anos de chuvas fartas.

O fruto da carnaubeira podia até se assemelhar ao da tamareira, mas não nutria igual. A eles não convinha a erva verde, o capim úmido, mas as folhas e galhos mais secos. A água fria dada para beber provocava cólicas, sendo eles habituados à água quente do sol. Precisavam dormir abrigados, e não ao ar livre. Não careciam de banhos que removessem deles o cheiro saudoso dos desertos. Eram habituados a pisar a maciez curvilínea das areias finas, e não as ladeiras e pedregulhos das nossas estradas.

Erros e mais erros conduziram à hecatombe. Em 1863 ainda viviam cinco adultos e duas crias. No ano seguinte, o presidente da Província anunciava restarem apenas três camelos da triste cáfila que se formara. Os demais, e no final eles todos eles, morreriam em silêncio, distantes de casa, a anatomia de seus ossos, de inusitado tamanho, repousando em locais ignotos dos nossos insondáveis Sertões.

 

 

 

 

 

Angela Barros Leal é jornalista e escritora.