A escolha da solução. Por Rui Martinho


Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Antiga anedota falava de dois doentes, em uma enfermaria. Um deles gritava de dor por ocasião da fisioterapia. O outro sorria tranquilamente quando submetido ao mesmo tratamento. O primeiro indagou ao segundo como era possível suportar tanta dor sorrindo. A explicação era simples: o “experto” indicava a perna sã ao fisioterapeuta. Trata-se de uma escolha mais comum do que parece. Exemplo disso são as dores da austeridade financeira, que frequentemente cedem lugar ao endividamento. Diversos argumentos são invocados pelos que recusam a “fisioterapia” dolorosa.

Os mais técnicos discorrem sobre estimular a economia “pedalando para a bicicleta não cair”. O prestígio de Maynard Keynes (1883 – 1946) é o arrimo do pensamento de quem esquece a resposta do renomado economista aos seus críticos: a longo prazo todos estaremos mortos. Acertou. Os contemporâneos dele morreram e a dívida dos governos é problema dos vivos. Os mais virtuosos invocam a solidariedade para com os necessitados, sejam os pobres ou megaempresários falidos. Sucesso eleitoral, aplausos e venda livros são recompensas atraentes. A autoimagem de virtuoso e sábio é gratificante. Quem prefere a “fisioterapia” dolorosa, que recompensa com a cura, pensa no equilíbrio fiscal, na produtividade, nas fontes de financiamento e nos investimentos criteriosos. Tudo muito complicado e antipático.

Escolher entre os dois caminhos não chega a ser um dilema dos mais desafiadores. A opção virtuosa, distribuir renda e patrimônio alheios, encanta eleitores e leitores. O insucesso da “terapia” inodora não afeta a convicção dos seus seguidores. A Argentina foi destruída tentando ser virtuosa, guiada pelo protagonismo de uma cidadania proativa, orientada pelos líderes daquilo que José Nêumanne Pinto (1951 – vivo) classifica como sociedade civil aparelhada. A Europa tratou de distribuir riqueza, mais do que de produzi-la. Foi suplantada pelos asiáticos, que elegeram como prioridade poupar, investir, incrementar a produtividade e produzir. São “malvados”, mas foi com a malvadeza que a China tirou seiscentos milhões da miséria.

A crise de 2008 foi enfrentada com os bancos centrais promovendo um derrame diluvial dólares, euros e outras moedas. Era preciso socorrer os bancos e outras empresas. Deixar de fazê-lo teria consequências desastrosas. Formou-se uma bolha financeira gigantesca. A pandemia atual provocou nova tsunami de financeira que trouxe uma inflação global, mais difícil de combater do que aquelas de âmbito nacional, no passado.

O tratamento sem dor continua uma ideia dominante. Os limites do distributivismo fiscal e monetário foram ultrapassados. A Europa toda está insolvente ou quase nesta condição. Grécia, Portugal, Espanha, Itália já não podem fazer contorcionismos contábeis e assim aparentar saúde fiscal. Alemanha e França estão caminhando rapidamente para a mesma situação. Quem socorreu Portugal e Grécia foi a China, que também amparou a Argentina, Irã.

Os sábios se iludem com fórmulas milagrosas. Os simples percebem o óbvio, mas não são influentes. Os erros dos sábios são mais acatados. A “sensibilidade social” esconde o próprio passado. Férias remuneradas, jornada de oito horas diárias de trabalho, salário mínimo e indenização por dispensa são contribuições da Carta del Lavoro, de 1927, do governo de Benito Mussolini (1883 – 1945). Mas a memória disso foi apagada. Aristóteles (384 a.C. – 322 a. C,) descreveu os regimes políticos e as suas formas decadentes. A decadência da democracia é a demagogia, para o autor citado.