A escassez de água no Ceará e em Israel: âmbito econômico, por Pedro Sisnando Leite


Pedro Sisnando Leite é economista com pós-graduação em desenvolvimento econômico e planejamento regional em Israel. Membro do Instituto do Ceará e da Academia de Ciências Sociais do Ceará. É professor titular (aposentado) do programa de mestrado (CAEN) da UFC, onde foi também Pró-Reitor de Planejamento. No Banco do Nordeste, ocupou o cargo de economista e Chefe da Divisão de Estudos Agrícolas do Escritório Técnico de Estudos Econômicos. No período de 1995-2002, exerceu a função de Secretário de Estado de Desenvolvimento Rural do Ceará. Publicou cerca de 40 livros em sua área de especialização e escreveu muitos artigos para jornais e revistas.

Existem regiões semiáridas em todos os continentes da terra. Cerca de 10% da população mundial reside nessas áreas, que representam 40% da população terrestre segundo estimativas do economista Heitor Matollo (Projeto Áridas). Mais de 20% da produção de alimentos é realizada por essa população, que se caracteriza na sua maior parte por baixos níveis econômicos e sociais. Mesmo contando com essas condições climáticas adversas e solos produtivos pobres, alguns países conseguiram superar tais dificuldades e construíram economias sustentáveis e desenvolvidas. Podem ser mencionados como exemplos o Estado de Israel, a Austrália, a Espanha, o México, a China e outros.

Com o apoio do Programa Aliança para o Progresso e bolsa da Organização dos Estados Americanos tive a excepcional oportunidade de acompanhar a fase pioneira do desenvolvimento de Israel no início da década de 60. Estudava e visitava os principais projetos de desenvolvimento rural integrado e as iniciativas de desenvolvimento sustentável nas regiões secas. Nas muitas palestras que tenho proferido sobre a experiência de desenvolvimento econômico de Israel, a questão sempre levantada pelos ouvintes é o de gestão do uso da água nesse País.

É natural que isso ocorra, pois sendo Israel um território predominantemente semiárido, árido e até mesmo desértico fica a curiosidade de saber-se como esse País tem superado a grande escassez do preciso líquido que aqui no Ceará tem desafiado gerações de técnicos e governantes. As centenas de grandes e pequenos açudes não conseguem saciar a sede dos usuários dos bilhões de metros cúbicos acumulados. São várias baías da Guanabara para abastecer o consumo de pouco mais de oito milhões, igual à população de Israel, limitadas áreas irrigadas e um parque indústria modesto. Se aqui prevalece essa curiosidade sobre Israel que vive com cerca de 20% do estoque da água num ano de normalidade climática, não queira saber, caros leitores, como tenho tido dificuldades em explicar para os israelenses como esbanjamos os nossos preciosos recursos aquíferos. Em tom jocoso, já ouvi deles expressões como perdulários da água ou deixam no ar dúvidas sobre os dados comentados. Não acreditam, nem eu tenho conseguido convencê-los da verdade.

Quanto à história do que ocorreu em Israel, posso dizer que, de fato, o programa de abastecimento da água executado por Israel coloca a nossa gestão da água local, estadual e regional em perspectiva muita negativa. Eles forneceram evidências de que muitas coisas são possíveis quando as partes interessadas colaboram. Ressaltam a importância de desenvolver estratégias e planos de ação para implementação, incluindo planos de financiamento. Gostaria de tratar alguns aspectos que são particularmente relevantes para o Ceará e o Nordeste semiárido.

O primeiro é o tratamento de águas residuais e reutilização. Israel é conhecido como um líder no uso de água reciclada pela agricultura. Cerca de 80 por cento do esgoto tratado é reutilizada. Este alto nível de reutilização é fundamental para satisfazer as necessidades de água do sector agrícola de Israel. Entretanto, nem toda a água utilizada pela agricultura é reciclada. Dependendo das colheitas e de localização, tanto a água doce ou a água salobra pode ser usada. Nem todos os resíduos domésticos e industriais são devidamente coletados e tratados. Esgoto bruto ou inadequadamente tratada são descartados. Pesquisa está sendo feito, mas os problemas ambientais associados à falta de coleta e tratamento adequados persistem.

Outro exemplo é a dessalinização da água salobra. São bem conhecidas realizações de Israel com a dessalinização da água do mar. Existem grandes instalações de osmose reversa que operam atualmente em Israel. Muitos avanços estão sendo feitas também em dessalinização de água salobra. Um problema associado com a dessalinização para o interior é a eliminação da salmoura. A salmoura da planta Granot, por exemplo, é transportado para o Mar Mediterrâneo. Conheci uma fábrica localizada perto do deserto de Neguev, longe do Mediterrâneo. Neste caso a água residual salgada é bombeada para lagoas de evaporação.

Historicamente e atualmente, a água nas regiões semiáridas é muito preciosa. Como as populações em crescimento e indústrias altamente consumidoras de água, com a siderurgia e a petrolífera que tanto se deseja implantar no Ceará, crescerá e será, um dos desafios associados ao fornecimento de abastecimento de água potável e de confiança. Resolver os muitos problemas nesse particular exigirá criatividade, tenacidade e parcerias. Acho que todos nós deveremos trabalhar para a elaboração de um programa com renovada determinação para identificar e implementar soluções adequadas para a nossa região.

Analisando a experiência de Israel, não se pode simplesmente pensar em adotar soluções copiadas. O caso da dessalinização por exemplo, não é uma questão tão simples como tenho ouvido de algumas pessoas, inclusive de autoridades do governo. A primeira pergunta a fazer é para que finalidade se destina a água, e qual o custo de investimento e de manutenção ou custeio. Em média, uma fábrica para dessalinização de 50 milhões de metros cúbicos custa cerca de um bilhão de reais. As estimativas são de que o custeio é de 10% desse valor, isto é, R$ 100 milhões anuais. É preciso lembrar que essa água não é potável, pois nesse caso os custos aumentam mais de 20%. Da água captada para dessalinização, cerca de 50% é aproveitada e o restante são eflúvios de alta densidade salina que precisam ser devolvidas ao oceano. Com o tempo centenas de quilômetros são afetados com a supersalinização, afugentando cardumes de peixes e tornando a água insuportável para o banho. O grande problema, entretanto, é o sódio retirado do processo de filtração da água salgada. São milhões de toneladas que serão acumulados ao sol, que ressequidos passam a flutuar no ar contaminando a vegetação, as casas, o ambiente.

Fala-se em industrializar esses resíduos, mas a experiência é que os produtos são onerosos em comparação com outras origens de fornecedores e qualidade da matéria prima e dos produtos manufaturados. Outro paradoxo é usar a água dessalinizada para a siderúrgica do Pecém, que terá resolvido o seu problema de água. Mas produz aço em placas que estão sendo exportadas para a Coreia do Sul para serem utilizados na produção de automóveis. Ou seja, o Ceará que não tem água, está exportando água em forma de metal, deixando todos os resíduos no meio ambiente local em prejuízo da população afetada. Vale registrar que a Siderúrgica de Ubu (Vale e ThyssenKrupp) programava utilizar dois terços de água do mar bruta (Anchieta, Espírito Santo). A essa altura, certamente, aqueles israelenses, que não entendiam o que estávamos fazendo com os nossos recursos de água, vão ficar completamente confusos com o nosso sistema de gestão sobre o assunto, tendo em vista longos anos de nossa vivência com essa dramática situação de calamidades e sofrimento das populações das zonas rurais e do interior pela escassez desse precioso líquido.

É oportuno lembrar o que os historiadores israelenses relatam sobre o que os fundadores de Israel já pensavam, planejavam e executavam com grande eficiência no início da criação dessa nação. Segundo os documentos divulgados sobre o assunto, dois elementos principais foram responsáveis pela transição dos métodos tradicionais de uso da água para a inovação: O fator humano e a introdução de novas tecnologias importadas. Outros princípios consolidaram uma filosofia de equidade altamente assimilada pela população. Por exemplo, o planejamento deveria ser global, beneficiando todas as regiões e populações. A água seria conduzida aos canos sob pressão, levando a uma economia de água e redução do custo de energia. Além disso, a água em excesso dos anos chuvosos deveria ser guardada para uso nos anos de seca.

Em resumo, acredito que a experiência de Israel é de grande valor para muitos países e, especialmente para o Nordeste do Brasil onde muitas características ambientais são muito semelhantes. Na verdade, o Ceará é o Estado que tem dedicado ao longo de sua história uma grande preocupação com o planejamento e execução da infraestrutura para a solução desse problema vital para a população e sua economia., mas as necessidades essenciais ainda não foram atendidas. E certamente ainda demandarão uma longa história. O fundamental nessa questão dos recursos naturais, especialmente da gestão da água é dedicar muito cuidado e previsibilidade para as decisões atuais que poderão ter consequências irreparáveis ou de elevado custo econômico e social no futuro como está registrado na literatura sobre o assunto e que eu mesmo conheço em muitas partes do mundo. Aqui no Ceará, por exemplo, está em curso um projeto industrial que poderá ser um desastre a longo prazo e que tenho advertido em artigos, entrevistas na televisão e na comunidade cientifica, mas motivo de muita indiferença.

Trata-se do projeto de uma grande refinaria de petróleo prometida pelo Governo Federal, mas que a Petrobras sempre considerou inviável e descartou de seus planos. Mesmo assim, o Governo do Estado considera esse projeto prioritário e tem buscado dedicadamente parceiros do Irã, da China e de outros países sem sucesso, mesmo com oferta de muitas vantagens promocionais. Pelo que conheço do assunto, sou conscientemente contrário e o futuro vai demonstrar as minhas previsões, inclusive que nos próximos vinte a trinta anos o petróleo será substituído por outras fontes de energia.

As refinarias de petróleo são grandes consumidoras de água, gerando, em contrapartida, grandes quantidades de despejos líquidos, alguns de difícil tratamento. Os efluentes hídricos gerados nas refinarias variam grandemente em quantidade e em qualidade, em função do tipo de petróleo processado, das unidades de processamento que compõem a refinaria em questão, e da forma de operação dessas unidades.

De um modo geral, as refinarias geram uma quantidade de efluentes líquidos que é relativamente proporcional às quantidades de óleo refinado. No caso do Brasil, as onze refinarias do sistema Petrobras geram entre 0,40 e 1,60 m³ efluente/ m³ óleo refinado na planta. No caso da Refinaria Premium II (Pecém), a minha estimativa é que seriam necessários muitos milhões de m³ de água anualmente, tendo em vista que a capacidade de processamento da refinaria é de 300 milhões de barris ano. Esses efluentes seriam lançados no mar da zona turística, contaminando toda a costa cearense na direção das correntes marinhas. Um exemplo pode ser visto no mar Egeu, no Golfo de Izmir (Turquia), onde presenciei uma situação desesperadora da população afetada por um desastre ambiental do petróleo. No local, há uma placa com um poema de Homero: “Cidade embaixo do céu mais belo e com um clima mais agradável que temos conhecido em todo o mundo”; poderia ser São Gonçalo do Amarante – CE.

As refinarias de petróleo utilizam de modo geral enormes quantidades de água para as suas atividades. Praticamente todas as operações de refino, desde a destilação primária até os tratamentos finais, requerem grandes volumes de água de processo e de resfriamento.

Depois do uso para resfriamento, o segundo principal uso de água nas refinarias é a alimentação das caldeiras. O vapor gerado pelas caldeiras é utilizado nos processos de retificação com vapor (“stripping”) e destilação. Como o vapor entra em contato direto com as frações do petróleo, o condensado resultante de tais operações pode ser contaminado. Os efluentes de processo são usualmente definidos como qualquer água ou vapor condensado que tenha entrado em contato com óleo, estando este último sob a forma líquida ou gasosa, e que, portanto, contém óleo ou outros contaminantes químicos. Incluem, além disso, soluções ácidas, soda exausta, água de lavagem do petróleo cru e dos derivados, água proveniente da etapa de dessalinização, os condensados resultantes da retificação a vapor e da destilação, assim como da limpeza ou regeneração com vapor dos catalisadores de processo. Aspecto não mencionado sobre as refinarias modernas é que elas pouco usam mão de obra, pois são automatizadas.