A Era de Biden e o Brasil. Por Igor Lucena


Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Tão rápido quanto se iniciou a revolução de um outsider da política americana como Donald Trump, da mesma maneira foi sua passagem e rapidez em conquistar o mais alto cargo público mundial e perdê-lo. Donald Trump entra para o seleto hall dos presidentes americanos que não conseguiram ser reeleitos; no entanto, ao não aceitar sua derrota no Colégio Eleitoral, colocou seus interesses acima dos interesses do seu país, principalmente por declarar publicamente que o sistema eleitoral e político americano era uma fraude, isso sem apresentar prova alguma. Ele mostrou ao mundo que efetivamente sua derrota confirmou que ele não era mais digno de continuar no cargo que exercia: a presidência dos Estados Unidos da América.

Iniciaremos, em 2021, uma nova era, a era Biden, com um presidente que possui um estilo muito mais pragmático, diferentemente de seu antecessor. Biden deverá alterar toda a geopolítica mundial, principalmente no tocante às suas relações com a China e com a América Latina. Dentro deste contexto, existem aspectos a nível global que devem ressuscitados. O presidente Biden já anunciou antes mesmo de sua vitória que vai voltar ao Acordo de Paris, que tem como foco o meio ambiente, algo que o governo trump se orgulhava de ter saído com o ‘falso’ pretexto de que o acordo destruiria empregos, principalmente no Rusty Belt. Durante os quatro anos do seu mandato, não só Trump não conseguiu resolver o problema dos empregos da região, como perdeu credibilidade quando tentou reativar a indústria do carvão em um cenário global voltado para investimentos em energias renováveis. A Alemanha, o Japão e até mesmo a China já estão liderando os investimentos neste setor, que deve ser a chave para a recuperação da oferta de empregos no meio-oeste americano.

No âmbito internacional, Joe Biden deve revitalizar e ratificar a importância dos órgãos internacionais, como a Organização Mundial do Comércio, as Nações Unidas e a Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN, reativando a importância não apenas do multilateralismo dentro das relações internacionais e ao mesmo tempo resgatando a política de Softpower americana, que era considerada pelo seu antecessor algo inútil; todavia, essa é a mais poderosa ‘arma de influência’ que os americanos possuem e que nos últimos 70 anos lhe possibilitaram consolidar a sua hegemonia em todo o planeta. O pragmatismo deve voltar a ser o centro de pensamento para decisões dentro do Departamento de Estado americano e possibilitará uma maior aproximação com aliados históricos como a União Europeia e o Japão. A China, a Rússia, a Coreia do Norte e outras nações autoritárias devem encontrar desafios cada vez maiores para a expansão de sua influência no governo Biden, pois o confronto não se dará mais no twitter, mas sim no campo internacional da diplomacia e da geoeconomia, setores em que os americanos ainda possuem a primazia, e que devem voltar a influenciar nações com estímulos financeiros e apoio militar.

Para a economia mundial, o que podemos aguardar é o fim da “política das tarifas”; ou seja, acordos com a China e a União Europeia devem ser alcançados nos próximos meses, retirando bilhões de dólares em tarifas que os americanos lhes impuseram, posto que, de fato, isso apenas diminui a capacidade produtiva dos dois países e torna os produtos mais caros. Dessa maneira, observa-se uma maior estabilização dos mercados internacionais, fazendo com que surjam oportunidades de investimento para países emergentes como o Brasil. Quanto ao governo Biden, a possibilidade de reintegração dos Estados Unidos à Aliança Transpacífica ou a outros acordos internacionais de livre comércio passa a ser uma realidade. Isso configurará uma total oposição à política “America First”, o que deve baixar as tensões geoeconômicas, gerando menos incertezas no campo internacional, o que deve impactar em uma queda da cotação do dólar no Brasil, causando um efeito positivo para a ‘queda’ da inflação brasileira em um longo prazo. As bolsas mundiais já mostram que o governo Biden deve causar efeitos benéficos, tanto por meio de estímulos financeiros quanto por meio de decisões políticas mais previsíveis, o que proporcionará uma estabilidade que deverá impulsionar os índices para o campo positivo ao longo do seu governo.

Um dos pontos mais importantes para o Brasil deverá ser a mudança radical em nossa política externa relacionada à Amazônia. Hoje a atual política ambiental brasileira é reprovada pela União Europeia e põe em risco a ratificação do acordo Mercosul-UE, o mais importante acordo comercial da história deste bloco econômico. Ao mesmo tempo, o próprio presidente Biden já apresentou críticas ferrenhas à nossa política ambiental. Cria-se aqui um ponto de inflexão, pois podemos continuar a adotar essa atual política, errônea ou não, e colocar em risco acordos comerciais com os Estados Unidos e a União Europeia? Isso custará ao Brasil dinheiro e empregos. O momento é para sermos pragmáticos e alinharmos nossos ponteiros com os europeus e americanos, que a partir de 2021 deverão estar mais unidos do que nunca, tanto para a questão ambiental quanto para as questões comerciais e financeiras. Precisamos nos unir a esse bloco ou ficaremos isolados comercialmente nos próximos anos. Ao adotarmos uma visão mais pragmática e mais multilateral, tanto no âmbito ambiental quanto na política externa, poderemos alavancar investimentos no Brasil, acesso a mercados consumidores no estrangeiro e principalmente poderemos renovar a confiança internacional de que o Brasil é um país seguro e estável.

Trump tentou implantar nos Estados Unidos um período neomercantilista, em que apenas o comércio e a balança comercial eram importantes. O surgimento de supostos “inimigos externos”, como o Globalismo, o Comunismo e a Mídia Golpista, foi negativo para a importância dos Estados Unidos no cenário internacional. Portanto, sua visão unilateral do mundo precisará ser modificada para reafirmar e recuperar a importância dos Estados Unidos como a principal potência do planeta, e Joe Biden deverá mostrar que, apesar dos erros dos últimos quatro anos, o espírito de liberdade, respeito e democracia estarão sempre acima de qualquer indivíduo em particular.