A disputa geopolítica do 5G, por Igor Macedo de Lucena

"Através de uma combinação de altas velocidades, grande largura de banda e super baixa latência, o 5G permitirá melhorias em sistemas de realidade virtual, robótica, jogos em nuvem, educação imersiva, saúde e, claro, aparelhos celulares e computadores"


Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

A disputa geopolítica do 5G

A partir de 2020 o mundo passará por uma nova e importante disputa internacional: a instalação das redes 5G de tecnologia de transmissão de dados. O processo terá início na Europa, na Ásia e nas Américas. O que aparentemente seria apenas uma evolução tecnológica se tornou algo muito mais importante e perigoso.

E por que a rede 5G tem tanta relevância? As redes 5G oferecerão aos consumidores velocidades ultrarrápidas de banda larga em casa (até 20 Gb/s). Essa nova rede também permitirá que as empresas façam avanços, como, por exemplo, carros mais inteligentes e mais conectados, avanços em tecnologias médicas e experiências de varejo aprimoradas por meio da personalização de marketing.

Através de uma combinação de altas velocidades, grande largura de banda e super baixa latência, o 5G permitirá melhorias em sistemas de realidade virtual, robótica, jogos em nuvem, educação imersiva, saúde e, claro, aparelhos celulares e computadores. Aliados a um uso cada vez mais intenso de tecnologia na vida das pessoas, no qual até mesmo as geladeiras estão ligadas a rede, transforma-se então a rede 5G um importante ativo geopolítico, pois seu controle significa o controle de um número infindável de informações pessoais.

Como a informação é uma moeda de poder no século XXI, o controle da informação é uma maneira de controlar o poder, algo que vem sendo levado muito a sério pelas nações ocidentais quando chega o momento de decidir qual rede de 5G utilizar em seus territórios.

Atualmente existem diversas empresas que estão trabalhando no desenvolvimento e expansão das redes 5G como a Samsung, Nokia, Ericsson, Verizon, Orange e Cisco. A grande questão é que a empresa que apresenta um dos menores custos de implantação e ainda aliada a uma boa qualidade é a gigante chinesa Huawei.

Tudo seria bastante fácil para os reguladores e decision makers das nações se não existissem várias evidências sobre objetivos off market da gigante chinesa. É no contexto do crescente poder cibernético da China que a Huawei é vista como um parceiro de negócios arriscado no que diz respeito ao desenvolvimento de infraestrutura crítica, como uma nova rede 5G.

A Huawei pode insistir que é uma empresa independente que não tem vínculos com o governo chinês, mas não é assim as potências ocidentais entendem. De acordo com a CIA, a Huawei recebeu financiamento tanto do exército chinês quanto da inteligência do Estado chinês. Além disso, o fundador da Huawei, Ren Zhengfei, foi engenheiro no exército chinês e a empresa participa de um “comitê sindical” nomeada pelo Estado.

Os EUA estão exercendo pressão diplomática direta para impedir que outras nações usem a gigante chinesa das telecomunicações. O governo dos EUA considera a Huawei um perigo claro e presente para a segurança nacional e argumenta que qualquer aliado que opte pela Huawei comprometerá o compartilhamento vital de inteligência entre esses países no futuro.

Até agora a Austrália, a Nova Zelândia, o Vietnã e o Japão atenderam ao chamado dos EUA de proibir a entrada da Huawei em seus territórios. Neste momento a campanha contra a Huawei atingiu uma nova fronteira: a América Latina. O México e a Argentina planejam iniciar as primeiras redes 5G da região em 2020, o Brasil deve segui-los em 2021. Na Europa a administração Trump está trabalhando duro para convencer outros Estados de eles não devem confiar em equipamentos 5G fabricados na China.

Em teoria, Washington encontrou um forte aliado em Bolsonaro. O presidente brasileiro, cuja estratégia de política externa visa se aproximar da administração Trump, sabe que pode perder as vantagens dessa proximidade se não tomar medidas concretas contra a Huawei. Após a mensagem da Casa Branca para o congresso americano no dia 8 de maio na qual o presidente Trump designou o Brasil como um grande aliado extra-OTAN, o que na prática aumenta a capacidade de parcerias tecnologias e militares com os Estados Unidos, significa também que a Huawei provavelmente terá problemas para desenvolver sua tecnologia no Brasil.

Sendo a China a mais importante parceira comercial do Brasil, mas ao mesmo tempo  que temos um governo com forte alinhamento político junto aos Estados Unidos, a implantação do sistema 5G no Brasil não será decidida somente por questões de custos ou tecnologia mais avançada, ela passará claramente por uma grande disputa geopolítica sobre informação e tecnologia na América Latina.