A crise chilena e a opinião pública, por Maurício Garcia


Maurício Garcia é sociólogo graduado pela FFLCH-USP, tem pós-graduação pela Fundação Escola de Sociologia de São Paulo (onde já lecionou) e pela ECA-USP (em marketing). Trabalhou mais de 20 anos no IBOPE, maior instituto de pesquisa da América Latina e como pesquisador é associado à Wapor (World Association for Public Opinion), tendo participado de diversos congressos da entidade pelo mundo. Também como pesquisador, foi vencedor do Prêmio Alfredo Carmo, oferecido pela ABEP (Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa), como melhor trabalho no 7º congresso da entidade com o estudo “A eleição para deputados em 2014 – Uma nova Câmara, um novo país”. Garcia é o mais novo articulista Focus.

Em junho de 2013, dias antes do início das manifestações em São Paulo contra o aumento de vinte centavos nas passagens de ônibus, a aprovação da administração da então presidente Dilma Rousseff estava em 71%, segundo pesquisa nacional da CNI, enquanto apenas 25% a desaprovavam. Menos de um mês depois, devido à proporção dos acontecimentos, o IBOPE repetiu a pesquisa e apenas 45% dos brasileiros aprovavam o governo Dilma, enquanto 49% passaram a desaprová-lo. Nesse caso, as pesquisas de opinião mostraram a velocidade da mudança do humor do brasileiro depois de acontecimentos que pipocaram pelo país. Acontecimentos esses que até hoje trazem consequências importantes no cenário brasileiro.

Agora é a vez do Chile. Em agosto desse ano, uma pesquisa realizada por um dos maiores institutos de pesquisa do mundo, a Ipsos, em toda América Latina, com líderes da região, apontou que o chileno Sebastian Piñera era o mais bem avaliado. Na semana passada, o instituto chileno Cadem apontou dados impressionantes para um período muito curto: apenas 13% aprovam Piñera, enquanto 79% o desaprovam. Além disso, 87% acreditam que o país precisa de uma nova Constituição e 69% acreditam que houve abuso das autoridades durante protestos dos últimos dias. Mudanças radicais em pouquíssimo tempo.

Esses dois exemplos mostram duas coisas muito importantes em relação às pesquisas de opinião pública: uma, a importância das sociedades terem acesso a dados confiáveis que mensuram essas tendências. É como um termômetro que dá ao médico a dimensão de uma febre, mostra a diferença de 38 graus para 41 graus, diferença que separa uma leve febre de uma hipertermia. Assim, hoje, mais do que nunca, as pesquisas de opinião são FUNDAMENTAIS para as sociedades, assim como o termômetro para o médico.

A outra é o quanto a opinião pública pode mudar, mesmo em nível nacional, de uma forma tão rápida e sólida, com enormes consequências para as sociedades. Infelizmente, há pessoas que não compreendem esse fenômeno e acham que as sociedades são estáticas e imutáveis. Hoje em dia, a opinião pública está mais dinâmica, graças ao “apoio” das mídias sociais, as pessoas estão mais conectadas e recebendo estímulos contínuos de todos os lados para mudarem seus conceitos. Por isso da ENORME dificuldade dos institutos de pesquisa de todo o mundo para fazerem essas mensurações.

Como latino americanos, é muito importante acompanharmos com atenção aos desdobramentos das manifestações no Chile. Vale lembrar que além do Chile, nosso continente está bem agitado nas últimas semanas, depois da volta do peronismo na Argentina, das conturbadas eleições bolivianas e das manifestações indígenas no Equador. E isso só é possível com um monitoramento contínuo da opinião pública através de pesquisas.

Sobre o clima quente dos nossos vizinhos, torçamos para que a violência não chegue por aqui.