A comoditização na educação superior, por Antônio Colaço Martins Filho

"O mercado de trabalho não se contenta mais com exímios respondedores de questões de provas, com um diploma a tiracolo", enfatiza o chancelar da Unifametro


Antônio Colaço Martins Filho é chanceler do Centro Universitário Fametro – UNIFAMETRO (CE). Diretor Executivo de Ensino do Centro Universitário UNIESP (PB). Doutor em Ciências Jurídicas Gerais pela Universidade do Minho – UMINHO (Portugal), Mestre em Ciências Jurídico-Filosóficas pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto (Portugal), Graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Autor das obras: “Da Comissão Nacional da Verdade: incidências epistemiológicas”; “Direitos Sociais: uma década de justiciabilidade no STF”. colaco.martins@unifametro.edu.br. Escreve no Focus.jor mensalmente.

Por Antônio Colaço Martins Filho
Post convidado

Por força da crise decorrente da pandemia, especialistas apontam uma tendência de queda expressiva nas matrículas em cursos superiores nos períodos vindouros, bem como um aumento da evasão daqueles alunos já matriculados. As dificuldades financeiras dos estudantes impeliram as instituições de ensino superior (IES) a adotar uma política de descontos cuja agressividade não tem precedentes no setor.

A bem da verdade, mesmo antes da pandemia do COVID-19, o mercado educacional já era palco de uma acirrada disputa de mensalidades.

Joseph Pine II e Gim Gilmore mapearam as escalas da progressão do valor econômico: mercadoria, produto, serviço e experiência. No campo das mercadorias (commodity), a disputa pelo mercado depende mais do preço do que de qualquer outro fator (durabilidade, usabilidade, estética etc). Por outro lado, uma empresa que proporcione experiências memoráveis aos seus clientes estará, segundo os autores, menos suscetível a uma disputa por preços do que os serviços, produtos e mercadorias.

No caso da prestação de serviços educacionais, a disputa aberta por preços de mensalidades – estampada em vivas cores nos outdoors e nos links patrocinados das redes sociais – evidencia que a comoditização atingiu em cheio o mercado do ensino superior.

Vários fatores contribuíram para essa realidade: matrizes curriculares dos cursos se tornaram parecidas, inclusive para facilitar a transferência de alunos entre as IES; medo de perder a base de clientes já conquistada; crença de que alunos não aceitam a EaD; ideia de que o Mec não aceitaria propostas inovadoras.

A crise que se faz presente não produziu a comoditização, apenas vem acelerar um processo já em andamento.

A solução passa, a nosso ver, pela oferta de uma experiência educacional mais conectada com as demandas da sociedade e do mercado de trabalho, que torne mais clara a relevância daquilo que se estuda para a vida profissional do aluno.

O mercado de trabalho não se contenta mais com exímios respondedores de questões de provas, com um diploma a tiracolo. Simplesmente contextualizar as questões das provas também não é suficiente, na medida em que vai produzir egressos capazes de responder questões, mas incapazes de solucionar problemas reais.

Nesse sentido, é fundamental que as avaliações contemplem a realização, por parte dos alunos, de produtos ou desafios (na terminologia de Rui Fava) imersivos, engajadores e relevantes para o mercado de trabalho, com desenvolvimento de pensamento analítico e da criatividade.

O tradicional hermetismo das Instituições de ensino superior – que se busca disfarçar com ações de responsabilidade social, atividades de extensão e convênios – deve dar lugar à construção de currículos em conjunto com empresas e com a participação das mesmas na avaliação dos alunos. Do contrário, os cursos superiores, em sua maioria, além de comoditizados, tornar-se-ão socialmente irrelevantes.