A arte de cair de pé. Por Angela Barros Leal

Em sua crônica de hoje, a escritora conta a trajetória do jovem General Tibúrcio, o “conde de Monte Cristo” cearense.


Praça General Tiburcio, popularmente conhecida como praça dos Leões. Em destaque, a estátua em homenagem ao militar. Na biografia traçada por Virgílio Brígido em 1888, o general é descrito por um sem fim de adjetivos: pequeno, musculoso, olhar direto e sisudo, vivo, valente, sagaz, entusiasta, colérico, alegre, orador eloquente, leitor de Victor Hugo, admirador de César e Napoleão, romanesco, generoso e, “por vezes, cruel”. Foto: Divulgação

Das nove horas da noite de 16 de fevereiro de 1893, uma terça-feira, até a madrugada da quarta-feira o tiroteio foi intenso. O General Tibúrcio encontrara-se no meio do fogo cruzado. De um lado, ao abrigo das grossas paredes do Palácio do Governo, estavam os partidários do presidente Clarindo de Queiroz. No campo oposto, os cadetes da Escola Militar do Ceará que, com o apoio de Floriano Peixoto, lutavam para derrubar o governo local.

O bombardeio ensurdecia quem estava por perto e iluminava a noite fortalezense. Às cinco da manhã uma bandeira branca acenou do massacrado prédio. Clarindo rendia-se e era hora de avaliar perdas e ganhos. Abrindo-se o sol, dissipada a fumaça, vira-se que uma das vítimas havia sido justamente a estátua do General Tibúrcio, derrubada do pedestal onde se encontrava desde 8 de abril de 1888.

Quarenta anos depois do fato o folclorista Leonardo Mota publicaria, no jornal A Nação, sua versão do acontecido: “O valente caboclo de Viçosa deu uma cambalhota pelos ares e caiu de pé”. Mais adiante, autores e jornais duplicariam o número de cambalhotas, qual fosse a estátua um artefato de malabarista, um trapezista circense.

Levando em conta o peso da imagem em bronze, com 2 metros de altura – algo entre 500 e 800k – e sabendo estar o topo do pedestal original distanciado do solo outros 2 metros, penso ser mais confiável descartar a versão dos volteios aéreos e assumir o mais provável: uma bala de canhão a deslocara para fora do pedestal. Agora: como conseguira se manter de pé, em terreno desnivelado, tendo contra si as forças poderosas da física, isso não sei como explicar.

Por pura e simples curiosidade consulto o Guia Militar de 1897. Nas cruentas batalhas em que se envolvera ao longo da guerra contra o Paraguai, entre 1865 e 1869, Antônio Tibúrcio Ferreira de Souza, da arma da artilharia, estudara e utilizara os recursos bélicos disponíveis, entre eles os canhões. Sabia como ninguém assentar o canhoneio no polígono de tiro, por a peça em bateria, graduar a alça de mira, dirigir a pontaria e disparar.

Utilizara nos conflitos da Tríplice Aliança – Umaitá, Avaí, Chaco, Redenção – os canhões Krupp, alemães, pesadões, quase duas toneladas de ferro a serem arrastadas por dezenas de homens em vastos areais, em terrenos pantanosos e enlameados, sem freios que os detivessem nas descidas ou os sustentassem no recuo após o disparo dos projéteis, configurando-se, na palavra exasperada do General Osório, como inúteis “trambolhos”.

Utilizara também os mais modernos canhões Lahitte, franceses, pesando menos de 1.300k e necessitando meia dúzia de operadores – justamente o modelo fornecido por Floriano Peixoto para os cadetes da Escola Militar do Ceará. Tibúrcio tivera a sorte de sofrer apenas pequenos ferimentos nos embates paraguaios. Mas não se livrara da bala fratricida.

Passado o conturbado episódio o monumento foi refeito no mesmo local, no centro da Praça General Tibúrcio. A reinauguração festiva se deu em 24 de maio de 1893, dessa vez elevando o homenageado à altura segura de seis metros. Um pedestal de granito do Quixadá substituiu o mármore original vindo da França, de onde viera também a própria estátua, forjada nas afamadas oficinas de Thiebaut Fréres.

Figura interessante, a do General Tibúrcio. Na biografia traçada por Virgílio Brígido em 1888 é descrito por um sem fim de adjetivos: pequeno, musculoso, olhar direto e sisudo, vivo, valente, sagaz, entusiasta, colérico, alegre, orador eloquente, leitor de Victor Hugo, admirador de César e Napoleão, romanesco, generoso e, “por vezes, cruel”. Era vaidoso, gostava de elogiar-se a si próprio e amava a popularidade. Ensinava a seus alunos: “Meninos, o soldado não deve ser modesto. Se o for, não faz carreira”.

Um self made man “sem parentes importantes e vindo do interior”, como diria Belchior, que encontrara sua vocação no Exército, no qual ascendeu ao posto de Brigadeiro cinco anos antes de falecer, em 1885, aos 48 anos de idade.

Aos 18 vivenciara seu “momento Conde de Monte Cristo”: com um velho sentenciado da Fortaleza da Santa Cruz, em Niterói, onde servira, aprendera história, filosofia e música. Mais adiante mergulharia nos estudos formais, demonstrando especial aptidão para a matemática. Talvez por ser “o tipo perfeito do cearense”, como coloca o biógrafo gaúcho Lobo Viana, talvez pelos dons transmitidos pelo misterioso sentenciado da Santa Cruz, tivesse aprendido a nobre arte de cair de pé.